Ética e Moral
Atualmente, na sociedade
conteporânea, há um questionamento muito grande sobre o que é essencial e o que
é secundário para o convívio social, levando a sociedade, por diversas vezes, a
uma inversão de valores e sentimentos. Embora esses questionamentos pareçam
mais latentes em nossa época, na verdade eles nasceram no momento em que o
homem passou a viver em sociedade e, para tanto, começou a perceber a
necessidade de “regras” que regulamentassem esse convívio. Dentro desse mundo
de normas e regras, para obter-se o bom relacionamento social, destaca-se
sobremaneira a ética – objeto de nosso estudo.
A ética é uma ciência de estudo da
filosofia e, durante toda a história, vários pensadores se ocuparam de
entendê-la, visando à melhoria nas relações sociais. As normas éticas revelam a
melhor forma de o homem agir durante o seu relacionamento com a sociedade e em
relação a si mesmo. Sócrates, considerado o pai da filosofia, relaciona o agir
moral com a sabedoria, afirmando que so quem tem conhecimento pode ver com
clareza o melhor modo de agir em cada situação. Assim como a teoria socrática,
várias outras foram formuladas por meio da história, contribuindo de alguma
forma para a melhoria do agir humano e, consequentemente, para o convívio
social. Com o atual cenário político-social que vivemos, percebe-se que o
estudo e aplicação de normas éticas se fazem cada vez mais frequentes e
necessários ao desenvolvimento do país.
Ética é a parte da filosofia que se
ocupa do estudo do comportamento humano e investiga o sentido que o homem dá a
suas ações para ser verdadeiramente feliz e alcançar, como diriam os gregos, o
“Bem viver”. A ética faz parte do nosso dia a dia. Em todas as nossas relações
e atos, em algum grau, utilizamos nossos valores éticos para nos auxiliar. Em
um sentido mais amplo, a ética engloba um conjunto de regras e preceitos de
ordem valorativa, que estão ligados à prática do bem e da justiça, aprovando ou
desaprovando a ação dos homens de um grupo social ou de uma sociedade. A
palavra ética deriva do grego ethos, e significa “comportamento”. Heidegger dá
ao termo ethos o significado de “morada do ser”.
A ética pode ser dividida em duas partes:
ética normativa e metaética. A primeira propõe os principios da conduta
correta, enquanto a segunda investiga o uso de conceitos como bem e mal, certo
ou errado, etc...
O estudo da ética demonstra que a
consciência moral nos inclina para o caminho da virtude, que seria uma
qualidade própria da natureza humana. Logo, um homem para ser ético precisa
necessariamente ser virtuoso, ou seja, praticar o bem usando a liberdade com
responsabilidade constantemente. Nesse aspecto, percebe-se que o “agir” depende
do ser. O lápis deve escrever, é de sua natureza escrever, a lâmpada deve
iluminar, é de sua natureza iluminar e ela deve agir dessa forma. A única
obrigação do homem é ser virtuoso, é de sua natureza ser virtuoso e agir como
homem. Infelizmente um mal que tem aumentado é o de homens que não agem como
homens.
Os preceitos éticos de uma sociedade
são baseados em seus valores, princípios, ideais e regras, que se consolidam
durante a formação do caráter do ser humano em seu convívio social. Essa
formação de conceitos se baseia no senso comum, que é um juízo ou conceito
comumente sentido por toda uma ordem, um povo ou uma nação, da sociedade em que
esse homem está inserido. Para melhor entendimento do que é senso comum,
tomemos o seguinte: uma criança que adoece consegue explicar para os seus pais
que está se sentindo mal, mesmo que racionalmente não saiba o significado do
termo “mal”. Ela consegue dar explicação porque tem a capacidade de “sentir” o
que a palavra significa. Quando falamos em ética como algo presente no homem,
não quer dizer que ele já nasce com a consciência plena do que é bom ou mau.
Essa consciência existe, mas se desenvolve mediante o relacionamento com o meio
social e com o autodescobrimento.
Nas palavras do intelectual baiano
Divaldo Franco, “a consciência ética é a conquista da iluminação, da lucidez
intelecto moral, do dever solidário e humano”. Para uma vida plena é necessário
recorrer à ética, à coragem para decifra-se, à confiança na própria vida, ao
amor como a maior manifestação do ser humano no grupo social, ao respeito por
si e pelo outro e, principalmente, à verdade, estando acima de quaisquer
interpretações, ideias ou opiniões.
O termo moral deriva do latim – mos
- , e significa costumes. A moral é a “ferramenta” de trabalho da ética. Sem os
juízos de valor aplicados pela moral, seria impossível determinar se a ação do
homem é boa ou má. Moral é o conjunto de normas, livre e consciente, adotado
que visa organizar as relações das pessoas, tendo como base o bem e o mal, com
visitas aos costumes sociais.
Apesar de serem semelhantes, e por
várias vezes se confundirem, ética e moral são termos aplicados diferentemente.
Enquanto o primeiro trata o comportamento humano como objeto de estudo e
normatização, procurando tomá-lo o mais abrangente possível, o segundo se ocupa
de atribuir um valor à ação. Esse valor tem como referências as normas e
conceitos do que vem a ser bem e mal baseados no senso comum. A moral possui um
caráter subjetivo, que faz com que ela seja influenciada por vários fatores,
alterando, assim, os conceitos morais de um grupo para outro. Esses fatores
podem ser sociais, históricos, geográficos, etc... Observa-se, então, que a
moral é dinâmica, ou seja, ela pode mudar seus juízos de valor de acordo com o
contexto em que esteja inserida. Aristóteles, em seu livro A Política, descreve
que “os pais sempre parecerão antiquadros para seus filhos”. Essa afirmação
demonstra que, na passagem de uma geração familiar para outra, os valores
morais mudam radicalmente. Outro exemplo é o de que moradores de cidades
praianas achem perfeitamente normal e aceitável andar pelas ruas vestidos
apenas com trajes de banho, ao passo que moradores de cidades interioranas vêem
com estranheza esse comportamento. Essa mudança de comportamento e juízo de
valor é provocada por um agente externo.
O ato moral tem em sua estrutura
dois importantes aspectos: o normativo e o factual. O normativo são as normas e
imperativos que enunciam o “deve ser”. Ex.: cumpra suas obrigações, não minta,
não roube, etc... Os factuais são os atos humanos que se realizam efetivamente,
ou seja, é a aplicação da norma no dia a dia no convívio social.
O ato moral tem sua complexidade na
medida em que afeta não somente a pessoa que age, mas aqueles que a cercam e a
própria sociedade. Portanto, para que um ato seja considerado moral, ou seja,
bom, deve ser livre, consciente, intencional e solidário. Dessas
características decorre a inserção da responsabilidade, exigindo da pessoa que
assuma as consequências por todos os seus atos, livre e conscientemente.
Por todos
os aspectos que podem influenciar os valores do que vem a ser bom ou justo e,
aliado a isso, a diversificação de informações culturais que o mundo
conteporâneo globalizado nos revela em uma velocidade espantosa, a ética e a
moral tornam-se cada vez mais importantes, exigindo que sua aplicabilidade se
torne cada vez mais adequada ao contexto em que está inserida.
Princípios
Princípio
é onde alguma coisa ou conhecimento se origina. Também pode ser definido como
conjunto de regras ou código de (boa) conduta pelos quais alguém governa a sua
vida e as suas intenções.
Fazendo
uma análise minuciosa desses conceitos, percebe-se que os princípios que regem
a nossa conduta em sociedade são aqueles conceitos ou regras que aprendemos por
meio do convívio, passados geração após geração. Esses conhecimentos se
originaram, em algum momento, no grupo social em que estamos inseridos,
convencionando-se que sua aplicação é boa, sendo aceita pelo grupo.
Quando
uma pessoa afirma que determinada ação fere seus princípios, ela está se
referindo a um conceito, ou regra, que foi originado em algum momento em sua
vida ou na vida do grupo social em que está inserida e que foi aceito como ação
moralmente boa.
Valores
Nas
mais diversas sociedades, independentemente do nível cultural, econômico ou
social em que estejam inseridas, os valores são fundamentais para se determinar
quais são as pessoas que agem tendo por finalidade o bem.
O
caráter dos seres, pelo qual são mais ou menos desejados ou estimados por uma
pessoa ou grupo, é determinado pelo valor de suas ações. Sua ação terá seu
valor aumentado na medida em que for desejada e copiada por mais pessoas do
grupo. Todos os termos que servem para qualificar uma ação ou o caráter de uma
pessoa têm peso “bom” e um peso “ruim”. Citam-se como exemplo os termos honesto
e desonesto, generoso e egoísta, verdadeiro e falso.
Os
valores dão “peso” à ação ou caráter de uma pessoa ou grupo. Esse peso pode ser
bom ou ruim. Kant afirmava que toda ação considerada moralmente boa deveria ser
necessariamente universal, ou seja, ser boa em qualquer lugar e em qualquer
tempo. Infelizmente o ideal kantiano de valor e moralidade está muito longe de
ser alcançado, pois as diversidades culturais e sociais fazem com que o valor
dado a determinadas ações mude de acordo com o contexto que está inserido.
O
Brasil ainda caminha a passos lentos no que diz respeito à ética,
principalmente no cenário político que se revela a cada dia, porém é inegável o
fato de que realmente a moralidade tem avançado.
Vários
fatores contribuíram para a formação desse quadro caótico. Entre eles os
principais são os golpes de estado – Golpe de 1930 e Golpe de 1964. Durante o
período em que o país viveu uma ditadura militar e a democracia foi colocada de
lado, tivemos a suspensão do ensino de filosofia e, consequentemente, de ética,
nas escolas e universidades. Aliados a isso tivemos os direitos políticos dos
cidadãos suspensos, a liberdade de expressão caçada e o medo da repressão. Como
consequência dessa série de medidas arbitrárias e autoritárias, nossos valores
morais e sociais foram se perdendo, levando a sociedade a uma “apatia” social,
mantendo, assim, os valores que o Estado queria impor ao povo.
Nos
dias atuais estamos presenciando uma “nova era” em nosso país no que tange à
aplicabilidade das leis e da ética no poder: os crimes de corrupção e de desvio
de dinheiro estão sendo mais investigados e a polícia tem trabalhado com mais
liberdade de atuação em prol da moralidade e do interesse público, o que tem
levado os agentes públicos a refletir mais sobre seus atos antes de cometê-los.
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